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Do jornal para o mundo

O projeto era ambicioso. Três pretensos jornalistas, três jornais diários e quase de 300 edições a serem lidas, analisadas e criticadas durante três meses de leituras de diárias. Os números são redondos, mas a atividade se mostrou mais pontiaguda do que o esperado. Encontrar, no caos do noticiário político nacional, assuntos cuja cobertura seja representativa dos principais problemas enfrentados pelo jornalismo pode ser uma tarefa muito complicada se seus limites de análise não estão bem definidos.

Que assuntos escolher – os que deveriam ter mais ou menos destaque no primeiro caderno, os que denotavam posições ideológicas do jornal, os que possuíam a cobertura mais preguiçosa ou imprecisa? É possível analisar apenas o texto e seus recursos argumentativos ou é preciso vasculhar os contextos de produção? Como fugir do senso comum da análise midiática? São questões que se impuseram conforme nosso amontoado de notícias, idéias e impressões foi crescendo.

Mas aos poucos cada peça foi se encaixando em seu devido lugar e nossas análises foram se delineando. Partimos tanto de questionamentos do mundo em direção ao jornal quanto do jornal em direção ao mundo. Com estilos, preferências e percepções de mundo diferentes, nos atemos ao que tangia nossas três visões – o conhecimento da necessidade de um jornalismo mais preciso, ético, responsável, e atuante. Nos criticamos, nos revisamos, aparamos as bordas de cada post até que ficasse acima de qualquer suspeita.

Aprendemos tanto sobre o trabalho jornalístico quando sobre o trabalho de crítica em si. Descobrimos que o óbvio, por tantas vezes não ser visto, pode ser surpreendente. Que o distanciamento é uma falácia e que quanto mais próximo o objeto estiver de nossa realidade, melhor e mais bem embasada será a crítica. Que o necessário para uma boa análise midiática é ler com os olhos atentos, ponderar sobre cada detalhe, recortar, esmiuçar, até que todo o prazer tirado da leitura tenha ido embora.

E que isso não é negativo, muito pelo contrário – enriquece nossa visão. Cada assunto analisado, cada ponto considerado, cada texto escrito afiou nossa percepção de forma que, nas próximas vezes que abrimos as primeiras páginas de um jornal, quer estejamos procurando assunto ou não, já não o veremos do mesmo.

kassab

Relutei, pensei, considerei e relutei de novo.  Minha dúvida era se escreveria ou não um texto para esse blog sobre o jornal O Estado de São Paulo. Não porque o jornal seja irrelevante, afinal ele consta desde o início  em nosso projeto de analisarmos três veículos . O problema é que sempre  achei que acabaria chutando cachorro morto.  Resvalaria, inevitavelmente, no clichê que acompanha mais de um século a existência do jornal, de que é direitista e conservador. Confesso que me agradaria muito mais, em qualquer outra situação, fugir do conceito ou até mesmo tentar desconstruí-lo. Mas não gosto do Estadão, vejo-o com maus olhos. Deixo as boas análises para minhas outras duas companheiras, e decido, então, esbaldar-me no lugar comum.

Antes de adentrar o caso, gostaria de deixar claro que reconheço o valor do jornal. O problema é que mesmo quando apresenta, vez ou outra, jornalismo de alto nível, o veículo faz abertamente suas escolhas partidárias no noticiário político (fantasiadas de verdade factual). Incomoda o pretendido equilíbrio, que, em época de eleição, acaba descambando para o favorecimento explícito.

A mim, bastou-me procurar o exemplo mais escancarado, que corroborasse minha tese. O que não foi, claro, muito difícil. Encontrei o meu factóide no caderno especial para o primeiro turno das eleições locais desse ano,  no dia cinco de outubro, data do escrutínio . Dois longos perfis ocupavam as primeiras duplas do interior do caderno, com Marta e Kassab, já conhecidos contendores no segundo turno, de acordo com as pesquisas.

Agora adivinhe, leitor. Quem é a “rica de família quatrocentona” e quem é o “Beto, bem humorado e divertido”? Seria divertidíssimo, se não fosse constrangedor e até, confesso que saio do sério, revoltante.

“Creolina”

Marta

Para Marta, as críticas do Estadão, os úteis comentários do Fernando Henrique, o caso Martaxa e os elogios do Supla. A reportagem de Vera Rosa é eficiente em dizer que “Ela trocou o divã pelo palanque, mas sem muitas concessões”. Um leitor mais bem informado saberia de cor quais os tópicos mais relevantes na vida da petista, e que inevitavelmente deveriam aparecer em um perfil da então candidata. E estão todos lá. O perfil psicológico chama-a de impulsiva, como todos sabemos que é. Revela como ela age diante dos repórteres (“Próxima pergunta’, ordena, quando repórteres insistem em saber o que ela não quer revelar”) e de que modo se traveste na campanha para encampar os mandamentos políticos dos marqueteiros. Traz alguns bons momentos da candidata, com seus acertos na gestão da cidade (os de sempre, CEUs e bilhete-único) e soam meigos os comentários do filho roqueiro, que arrepia a classe média leitora do jornal, em elogios à sua mãe. Suplicy, o ex, é compreensivo, com “respeito e carinho”.

O perfil bate encima dos defeitos de Marta, talvez excessivamente, mas do jeito que tem que ser. Bom jornalismo. Tudo bem que esteja armado de dois tucanos para criticá-la. Pode ser meio tendencioso, mas vá lá. Colocar o vereador Gilberto Natali (PSDB) em um parágrafo inteiro rindo de sua travessura, quando apelidou com sucesso a então prefeita de “Martaxa”, e disponibilizar ao ex-presidente Fernando Henrique espaço para descer a lenha na candidata é iluminar os olhos do leitor. Traz pontos destoantes para o debate. Dizer que, se ela ganhar, já está com o jogo combinado com Lula, que poderá pular a qualquer hora para uma campanha presidencial, é necessário, visto o histórico de prefeitos na cidade. Assim também o “Relaxa e Goza”, que já está marcado em sua biografia.

Aplaudo honestamente o texto crítico. Em valores absolutos. Mas o que o jornal consegue, com mérito, é transformá-lo em um ataque pessoal de vastas proporções. É só começar a ler o texto da página ao lado.

Não era um craque, mas dava conta do recado

kassab

O texto de Kassab é piada de mau gosto. Ou pelo menos só assim lhe restaria dignidade (“Beto quer ficar mais 4 anos à frente da cidade”). O perfil leva o seu leitor para dentro do mundo mágico de Kassab,  “bem-humorado”, “divertido” e “inteligente”. É certo que grande parte dos adjetivos, que, chuto, compõem uns 75% do texto, são condicionados a seus familiares ou padrinhos políticos. Mas não deixam de ser uma escolha do repórter ou do editor.

Neles descobrimos o gênio, que, por um escorregão, não fosse o alerta do jornal, poderia deixar de habitar a prefeitura. Afinal, como deixaríamos de eleger o “articulador notável, muito capaz”, que “não se deixa abater nem nos momentos claudicantes da jornada” e “não descansa até alcançar o objetivo” ? Ora, “ele é um trator”! Como podemos ignorar que “suas armas são o poder de persuasão e a perseverança?” Que “Movimenta-se sem embaraços. Basta-lhe um telefone, muitas vezes”.

Ou que desde criança, Kassab é um gênio, não só no público, como no privado. Que “se destaca por sua aplicação. Os boletins são a prova de empenho do aluno que virou prefeito. Notas altas ele tira corriqueiramente: no terceiro ano, a média geral bate em 9,7. Em aritmética, naquele 1968, leva a nota máxima em março, abril, maio e setembro. Nos outros meses não vai tão bem: oscila entre 9,6 e 9,8…”.

E é claro que tudo isso veio de uma “família singular”: “Kassab e seus irmãos foram criados em um ambiente de paz e afeto”,  “uma vida muito feliz, todos muito amigos”. No texto nos é revelado que, quando criança, o “brincalhão”, era bom de garfo, só não comia o bendito do agrião. Também que estudou no “Liceu Pasteur, de tantas tradições e histórias”, onde “se formaram alguns próceres da metrópole”. Óbvio, “encantava a professora”. No futebol, “não era um craque, mas dava conta do recado”.
Hoje, “organizado e meticuloso”(“a gaveta dele é de dar inveja, de ganhar medalha”), “bom partido ele é – suas credenciais e dotes não são desprezíveis”. “É irreverente” “não fuma”, “é católico”. Deus sabe como ainda não arranjou uma moça.

Críticas? Lá no final do longo texto, onde possivelmente ninguém chegou, farto de tanta bajulação. Eu cheguei até lá. De imediato, automaticamente, sem pensar, expressei um sincero “Ufa!, ainda bem que ele foi eleito”.
Estranhei. Pensei melhor e, aliviado, suspirei de novo , “Ainda bem que eu não assino o Estadão”.

O jornalismo que busca apenas confirmar uma idéia pré-concebida já é execrado por todos (pelo menos na academia). Mas um jornalismo que visivelmente se propõe a confirmar uma tese e falha miseravelmente ou é preguiçoso ou foi feito nas coxas.

Vou explicar: no dia 30 de agosto saiu o jornal O Estado de S. Paulo a matéria “Sai aumento para 300 mil servidores ao custo de R$ 8 bi”.

O Estado de S. Paulo (30/08)

O repórter Leonencio Nossa começa chutando o balde:

Em troca de um cenário político sem greves até o final do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou na manhã de ontem duas medidas provisórias que reajustam o salário de cerca de 300 mil servidores públicos federais ativos e inativos.

A primeira frase da matéria já dá o tom do texto inteiro. A relação entre o aumento concedido e a intenção supostamente escusa é forçada e soa estranha numa reportagem localizada no espaço meramente informativo do jornal. Esse julgamento soa mais como editorial.
O resto da matéria, obviamente, vai se concentrar menos em dizer quais são os tramites das negociações que levaram ao aumento e em contextualizar esse gasto no orçamento do governo dos anos seguintes e irá focar-se nas ações do presidente para acalmar os funcionários e garantir tranqüilidade para 2010, ano de eleição é bom lembrar. No entanto, ele não procura nenhuma fonte ligada ao governo para falar sobre o assunto.
O repórter adiciona na cesta de argumentos a criação de mais 13.500 novos cargos. Agora, o que isso tem a ver com a ausência de greve é um mistério pra mim.
O texto continua com medidas antigas que concederam reajustes para os funcionários. E então vem a parte mais estranha do texto:

Muitos acordos foram feitos em maio. Foi o caso dos 15 mil analistas da Receita Federal. Eles negociaram um aumento médio de salário de 50%.
“O governo foi inteligente”, avaliou Paulo Antunes de Oliveira, presidente do Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal (Sindireceita). “Esse escalonamento foi para evitar pressões em 2010″, avaliou. “Na ótica do governo, enquanto estiver em vigor as parcelas de aumento não vai ter negociação.” Um analista tributário começa a carreira recebendo salário mensal de R$ 5.300 e, ao final da carreira, terá um benefício de R$ 7.000. Com os aumentos, os salários passam respectivamente para R$ 8.000 e R$ 11.600 em 2010. A última greve da categoria ocorreu em 2005.
“Negociamos o que foi razoável”, diz Oliveira.

O repórter pinça a fala do presidente do sindicato de uma categoria beneficiada pelo aumento. Nela, o representante confirma a tese de que o governo agiu com a intenção de “calar a boca” dos analistas da receita federal com o aumento escalonado. Daí o repórter fala do aumento propriamente dito, para ilustrar a situação. E, então, fecha o texto com duas frases: “A última greve da categoria foi em 2005. “Negociamos o que foi razoável”, diz Oliveira”.
Hein?! Fica parecendo que o repórter não sabia o que escrever e juntou umas frases aleatórias.
Depois, ele volta a cumprir a sua tese de que o governo está agindo com a intenção de acalmar os funcionários. Desta vez, ele vai mostrar como essa ação está sujeita a falhas.

No entanto, há sinais de rebeldia na base dos servidores. Antes mesmo de ler os textos das medidas provisórias, os previdenciários avisaram que não existe acordo de manter a Esplanada dos Ministérios limpa de manifestações e nos dois últimos anos do governo Lula.

“Não temos compromisso de não fazer movimentos até 2011.”

Texto mal começado, mal escrito. Mas a retranca consegue piorar.

“Até técnicos do governo vêem exagero em reajustes” – (30/08)

O Estado de S. Paulo (30/08)

O repórter Sérgio Gobetti vai atrás de fontes do planalto. Todas, sem exceção, em off. E, obviamente, todas criticando a postura do governo. As críticas se relacionam à falta de limites dos aumentos em contraposição a um projeto de lei do próprio Ministério do Planejamento ainda não aprovado que instituía esse limite. E para fechar o texto, o repórter diz que “O governo incluiu na MP um condicionante de que a concretização dos aumentos dependerá da existência de receita.“ e não desenvolve essa polêmica, nem explica os termos dessa condicionante caso não haja receita.
Enfim, a matéria parece não ter a função de informar, mas sim de confundir e expor uma postura contrária, sem muito embasamento.

Se a intenção era analisar de uma forma crítica o aumento, por que não contextualizar esse aumento em comparação à divisão orçamentária do país ou chamar especialistas que pudessem falar sobre o gasto do governo com custeio contra aquilo que investe? Enfim, algo mais consistente do que apenas reunir falas em off e redigir um texto confuso. (há sempre a possibilidade de a culpa ser do deadline e do editor, é claro).

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