
Relutei, pensei, considerei e relutei de novo. Minha dúvida era se escreveria ou não um texto para esse blog sobre o jornal O Estado de São Paulo. Não porque o jornal seja irrelevante, afinal ele consta desde o início em nosso projeto de analisarmos três veículos . O problema é que sempre achei que acabaria chutando cachorro morto. Resvalaria, inevitavelmente, no clichê que acompanha mais de um século a existência do jornal, de que é direitista e conservador. Confesso que me agradaria muito mais, em qualquer outra situação, fugir do conceito ou até mesmo tentar desconstruí-lo. Mas não gosto do Estadão, vejo-o com maus olhos. Deixo as boas análises para minhas outras duas companheiras, e decido, então, esbaldar-me no lugar comum.
Antes de adentrar o caso, gostaria de deixar claro que reconheço o valor do jornal. O problema é que mesmo quando apresenta, vez ou outra, jornalismo de alto nível, o veículo faz abertamente suas escolhas partidárias no noticiário político (fantasiadas de verdade factual). Incomoda o pretendido equilíbrio, que, em época de eleição, acaba descambando para o favorecimento explícito.
A mim, bastou-me procurar o exemplo mais escancarado, que corroborasse minha tese. O que não foi, claro, muito difícil. Encontrei o meu factóide no caderno especial para o primeiro turno das eleições locais desse ano, no dia cinco de outubro, data do escrutínio . Dois longos perfis ocupavam as primeiras duplas do interior do caderno, com Marta e Kassab, já conhecidos contendores no segundo turno, de acordo com as pesquisas.
Agora adivinhe, leitor. Quem é a “rica de família quatrocentona” e quem é o “Beto, bem humorado e divertido”? Seria divertidíssimo, se não fosse constrangedor e até, confesso que saio do sério, revoltante.
“Creolina”
Para Marta, as críticas do Estadão, os úteis comentários do Fernando Henrique, o caso Martaxa e os elogios do Supla. A reportagem de Vera Rosa é eficiente em dizer que “Ela trocou o divã pelo palanque, mas sem muitas concessões”. Um leitor mais bem informado saberia de cor quais os tópicos mais relevantes na vida da petista, e que inevitavelmente deveriam aparecer em um perfil da então candidata. E estão todos lá. O perfil psicológico chama-a de impulsiva, como todos sabemos que é. Revela como ela age diante dos repórteres (“Próxima pergunta’, ordena, quando repórteres insistem em saber o que ela não quer revelar”) e de que modo se traveste na campanha para encampar os mandamentos políticos dos marqueteiros. Traz alguns bons momentos da candidata, com seus acertos na gestão da cidade (os de sempre, CEUs e bilhete-único) e soam meigos os comentários do filho roqueiro, que arrepia a classe média leitora do jornal, em elogios à sua mãe. Suplicy, o ex, é compreensivo, com “respeito e carinho”.
O perfil bate encima dos defeitos de Marta, talvez excessivamente, mas do jeito que tem que ser. Bom jornalismo. Tudo bem que esteja armado de dois tucanos para criticá-la. Pode ser meio tendencioso, mas vá lá. Colocar o vereador Gilberto Natali (PSDB) em um parágrafo inteiro rindo de sua travessura, quando apelidou com sucesso a então prefeita de “Martaxa”, e disponibilizar ao ex-presidente Fernando Henrique espaço para descer a lenha na candidata é iluminar os olhos do leitor. Traz pontos destoantes para o debate. Dizer que, se ela ganhar, já está com o jogo combinado com Lula, que poderá pular a qualquer hora para uma campanha presidencial, é necessário, visto o histórico de prefeitos na cidade. Assim também o “Relaxa e Goza”, que já está marcado em sua biografia.
Aplaudo honestamente o texto crítico. Em valores absolutos. Mas o que o jornal consegue, com mérito, é transformá-lo em um ataque pessoal de vastas proporções. É só começar a ler o texto da página ao lado.
Não era um craque, mas dava conta do recado
O texto de Kassab é piada de mau gosto. Ou pelo menos só assim lhe restaria dignidade (“Beto quer ficar mais 4 anos à frente da cidade”). O perfil leva o seu leitor para dentro do mundo mágico de Kassab, “bem-humorado”, “divertido” e “inteligente”. É certo que grande parte dos adjetivos, que, chuto, compõem uns 75% do texto, são condicionados a seus familiares ou padrinhos políticos. Mas não deixam de ser uma escolha do repórter ou do editor.
Neles descobrimos o gênio, que, por um escorregão, não fosse o alerta do jornal, poderia deixar de habitar a prefeitura. Afinal, como deixaríamos de eleger o “articulador notável, muito capaz”, que “não se deixa abater nem nos momentos claudicantes da jornada” e “não descansa até alcançar o objetivo” ? Ora, “ele é um trator”! Como podemos ignorar que “suas armas são o poder de persuasão e a perseverança?” Que “Movimenta-se sem embaraços. Basta-lhe um telefone, muitas vezes”.
Ou que desde criança, Kassab é um gênio, não só no público, como no privado. Que “se destaca por sua aplicação. Os boletins são a prova de empenho do aluno que virou prefeito. Notas altas ele tira corriqueiramente: no terceiro ano, a média geral bate em 9,7. Em aritmética, naquele 1968, leva a nota máxima em março, abril, maio e setembro. Nos outros meses não vai tão bem: oscila entre 9,6 e 9,8…”.
E é claro que tudo isso veio de uma “família singular”: “Kassab e seus irmãos foram criados em um ambiente de paz e afeto”, “uma vida muito feliz, todos muito amigos”. No texto nos é revelado que, quando criança, o “brincalhão”, era bom de garfo, só não comia o bendito do agrião. Também que estudou no “Liceu Pasteur, de tantas tradições e histórias”, onde “se formaram alguns próceres da metrópole”. Óbvio, “encantava a professora”. No futebol, “não era um craque, mas dava conta do recado”.
Hoje, “organizado e meticuloso”(“a gaveta dele é de dar inveja, de ganhar medalha”), “bom partido ele é – suas credenciais e dotes não são desprezíveis”. “É irreverente” “não fuma”, “é católico”. Deus sabe como ainda não arranjou uma moça.
Críticas? Lá no final do longo texto, onde possivelmente ninguém chegou, farto de tanta bajulação. Eu cheguei até lá. De imediato, automaticamente, sem pensar, expressei um sincero “Ufa!, ainda bem que ele foi eleito”.
Estranhei. Pensei melhor e, aliviado, suspirei de novo , “Ainda bem que eu não assino o Estadão”.