Sem entrar (muito) no mérito de avaliar a cobertura sobre o Caso Alstom, gostaria de falar sobre o “Outro Lado” da Folha de S. Paulo. O “Outro Lado” é uma coluna que acompanha as matérias mais “polêmicas” dando a versão daqueles que estão envolvidos no lamaçal exposto anteriormente.
Se você não sabe o que é o Caso Alstom, não tem problema, a cobertura que os jornais estão fazendo não está das melhores e, aparentemente, o caso está sendo tratado como algo meramente referente a uma empresa estrangeira, polêmica do outro lado do oceano.
Calma, a gente já chega lá.
O que é o caso Alstom

Autoridades judiciais da Suíça e da França estão investigando a multinacional francesa Alstom, que trabalha com o fornecimento de equipamentos pesados na área de transportes, pelo suposto pagamento de propinas a fim de vencer licitações públicas em outros países, incluindo nosso Brasil varonil.
O bacana disso tudo é que a imprensa brasileira ficou sabendo do fato por causa de uma reportagem do Wall Street Journal, no dia 06 de maio. A partir dessa suspeita, o Ministério Público Estadual de São Paulo começou a investgar os contratos da Alstom com 6 empresas ligadas ao governo de São Paulo. Além do Metrô, para o qual a empresa Alstom teria pago propina no valor de US$ 6,8 milhões para conseguir contrato no valor de US$ 45 milhões, os negócios com mais cinco empresas são alvo de investigação: CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), Cesp (Companhia Energética de São Paulo), Eletropaulo, Sabesp (a companhia estadual de água e saneamento) e CTEEP (Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista).
A compra de trens
Entre os contratos considerados irregulares pelo TCE (Tribunal de Contas do Estado), o que mais chamou a atenção da imprensa foi a restauração, em 2007, de um contrato datado de 1992 para comprar 11 trens pelo valor de R$ 500 milhões. Esse contrato previa 22 trens, mas apenas 11 haviam sido entregues. O Metrô decidiu encomendar os 11 restantes e acrescentou mais cinco trens. O TCE aponta que houve um prejuízo de R$ 70 milhões ao se optar por esse contrato com a Alstom. No contrato de 1992, a fornecedora era encarregada de pagar os impostos. Segundo o TCE, o governo paga 14% a menos de impostos se ele importa diretamente o trem, vantagem de que o Metrô poderia ter se valido se abrisse nova licitação. (Metrô fechou R$ 556 mi em contratos irregulares, diz TCE 16/05)
No “Outro Lado”, o Metrô alega que, na verdade, houve uma economia de R$ 100 milhões, se for comparar os preços da empresa francesa com outros fornecedores. Em nenhum momento a Folha consegue dizer se a afirmação é verdadeira. O leitor possui as tais duas versões do causo, mas não possui base concreta para entender, afinal, se houve irregularidade ou não. E é um pouco assim que se comporta esse espaço. O “Outro Lado” é um recurso da Folha para conseguir manter o “pluralista” em seu lema. O problema é que o “outro lado” é sempre a versão invertida daquilo que se disse na matéria principal. Se a empresa foi acusada, ela nega, se disseram que pagou X, ela diz que foi Y e fica por isso mesmo. O leitor fica perdido com as duas informações contraditórias.
Puxão de orelha

No dia 25 de maio, 19 dias depois da publicação do jornal Valor Econômico (repercutindo a reportagam do The Wall Street Journal, Carlos Eduardo Lins da Silva, Ombudsman da Folha, escreve um texto falando sobre a má qualidade da cobertura do jornal sobre o caso. A medida confere certa credibilidade ao jornal (a própria existência de um ombudsman torna-se elemento dignificador do jornal, mas isso é outra história).
Depois do puxão de orelha, a Folha pareceu acordar. Fez uma cobertura mais intensa, ainda que repercutindo matérias de outros jornais, como O Estado de S. Paulo e sem, ainda, tratar da gravidade de se confirmarem corrupção de uma empresa estatal.
A terceira voz
No dia 05 de junho, a Folha publica a notícia “Metrô paga R$ 4 mi a mais por trem da Alstom sem licitação”.
A matéria compara o preço pago a Alstom pelo fornecimento dos trens ao Metrô sem a licitação em relação a uma compra feita pela própria empresa, mas por meio de uma concorrência internacional. A comparação mostra que o Metrô pagou R$ 4 milhões a mais por cada trem. O Metrô alega que não era possível realizar outra licitação porque o contrato de 1992 com a Alstom ainda não havia sido concluído. Por esse contrato, a empresa ainda deveria fornecer mais 11 trens ao Metrô, este alega que se quebrasse o contrato, poderia ser processado pela empresa francesa.
Dessa vez, porém, o jornal foi atrás de uma terceira voz que pudesse dar um parecer sobre essa dúvida.
“Para estudiosos, Metrô devia ter aberto licitação“
A Folha foi consultar três especialistas na Lei de Licitações e ouviu dos três que o Metrô não corria risco de ações por parte da empresa Alstom, pois o contrato em questão estava “caduco”.
Finalmente uma terceira voz (tria) para esclarecer o pluralismo dicotômico da Folha. Mas como não podia deixar de ser, a Folha ainda deu espaço para nova contestação do Metrô. Ainda no mesmo dia saiu a matéria “Estatal afirma que comparar contratos de aquisição de trens não faz sentido”
O texto reproduz nota do Metrô sobre o parâmetro considerado pela empresa equivocado para se fazer os cálculos das comparações dos preços dos trens. Além disso, o Metrô levanta outro argumento: a de que seria impossível realizar nova licitação para a compra dos trens porque o Estado de São Paulo estava endividado e, por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal, não seria possível abrir nova concorrência.

E assim, o leitor continua com as dúvidas quanto a quais argumentos ouvir ou acreditar. Para não perder o costume de cotucar tudo e todos: fica aqui só a menção sobre a ausência de uma cobertuda mais enfática, que tratasse por exemplo do significado para o contexto político do país, da possibilidade de se constatar corrupção nas empresas estatais. Ou então que esmiuçasse a tentativa dos tucanos de abafar as investigações na Assembléia Legislativa de São Paulo. (tema tratado apenas em uma matéria do jornal)
Lembrando que caminhamos para um cenário de consolidação de disputas presidenciais…