
"É casado? Tem filhos?"
Grande parte dos ensinamentos que temos na faculdade de jornalismo é somente aprendido na prática, na própria confecção de material noticiário. Em tempos de Jornal do Campus, de cuja equipe este que escreve faz parte, a prática foi pródiga em ensinar que, na edição, são poucos os erros do acaso. A malícia do jornalista é, com toda certeza, a artífice de grande parte das coincidências, arquiteta do que está velado. Mas nem tudo é galhofa, as sub-mensagens compõem o conteúdo a ser transmitido, como um sussurro de um segredo contado.
Estou a falar aqui da peça armada nas últimas eleições municipais. À época, Marta Suplicy, candidata do PT, no início do segundo turno, lançou mão de propaganda publicitária em que questionava a vida pessoal de seu adversário, Gilberto Kassab (DEM). Perguntou se o prefeito é solteiro ou tem filhos. Como um tabu que todos os jornalistas de todas as redações não conseguiam mais evitar, o assunto explodiu no noticiário. Passou-se, e este é caso interessante, de uma notícia velada, mas cheia de indicações sobre seu verdadeiro conteúdo, até o aberto diálogo. Somente no final da história, perguntou-se diretamente ao prefeito se era mesmo gay.
À parte o debate sobre o quanto importa com quem vai à cama Kassab, é indicativo percebermos como reagiram os editores da Folha diante dessa bomba, como buscaram informar o leitor no momento em que ela estourou.
A notícia, no dia 13 de outubro, foi a segunda na hierarquia da primeira página (“Marta questiona vida pessoal de Kassab”). Na foto, no alto da página, composta por duas partes, mostrando momentos do debate televisivo ocorrido no dia anterior, Marta e Kassab gesticulam, um de frente ao outro. Marta acusa com feição contraída e o dedo em riste. Kassab, com as mãos espalmadas, parece embaraçado ao tentar se explicar de qualquer coisa.
Até aí tudo bem, diriam. Mas não seriam nessas indicações diretas que o leitor iria buscar suas informações complementares. Na metade inferior da página cinco chamadas, em plena harmonia, que continuam o sentido de leitura da rixa política, é o que promove um parcial entendimento do que se passa.
Kaká e Dunga, em cena explícita de afeto, ocupam os olhares na parte inferior da página, logo abaixo da chamada Marta/Kassab, em um caloroso e sorridente abraço dos dois homens. Para complementar, uma quadra de chamadas, acredito, especialmente selecionadas. Intimamente posicionadas ao lado direito da foto do abraço afetivo, lê-se, em negrito, nos quadrinhos coloridos, temas relacionados à sexualidade: “Seleção de espermatozóides”, “Contra cenas de nudez” e “Sexo e Saúde”. No lado esquerdo da foto, chamada sobre o HIV.

Kassab é maquiado em debate
Daí que se depreende que Kassab é mesmo homossexual? Claro que não, mas basta para instaurar um comichão atrás da orelha do leitor.
O próprio, curioso, abre então o caderno e vai direto à editoria Brasil. Na página A3, a notícia está lá, “Marta explora vida pessoal de Kassab, que recorre à Justiça”. No texto, pouco sobre tudo, mas não o suficiente. “Na televisão e no rádio, um locutor disse que o eleitor deveria saber se ele é casado e se tem filhos”. Os repórteres Laura Mattos, Catia Seabra e Conrado Corsalette registram a opinião de uns e outros (“Lamentável e de baixo nível”, disse a coordenação da campanha do democrata; “O que você está querendo insinuar?”, Marta Suplicy). Mas não, novamente, não era só a notícia que estava ali.

Gabeira na Parada Gay
No “Painel”, ao lado, o título é de “Hora do Desespero”. O ápice, porém, é a retranca no pé da página. Com relevância nula para se posicionar na primeira página do caderno, a Folha colocou estrategicamente que “Gabeira assina carta contra homofobia”. E há até foto!, algo estranho para o padrão de retrancas nessa página do jornal. Ela mostra participantes da Parada Gay do Rio vestidos espalhafatosamente, mais o candidato Gabeira. A cereja no bolo, enfim, encontra-se na página seguinte com uma foto de Kassab sendo maquiado com um pincel para blush, ou algo assim, por um assessor no meio do referido debate.
É possível que seja paranóia e essas coincidências sejam próprias do jornalismo.? É tudo tão orquestrado que não acredito. O importante é questionar se foi feito jornalismo. Também, se o eleitor mais desavisado, que corria por fora dos boatos correntes, entendeu plenamente o que se passava. Dificilmente. O jornal preferiu esperar, deu no outro dia um contorno factível ao assunto com declarações de repúdio partidas de organizações que representam os homossexuais. Passou a bola para outros e não explicou o que se passava. Caiu na apatia do politicamente correto.