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Do jornal para o mundo

O projeto era ambicioso. Três pretensos jornalistas, três jornais diários e quase de 300 edições a serem lidas, analisadas e criticadas durante três meses de leituras de diárias. Os números são redondos, mas a atividade se mostrou mais pontiaguda do que o esperado. Encontrar, no caos do noticiário político nacional, assuntos cuja cobertura seja representativa dos principais problemas enfrentados pelo jornalismo pode ser uma tarefa muito complicada se seus limites de análise não estão bem definidos.

Que assuntos escolher – os que deveriam ter mais ou menos destaque no primeiro caderno, os que denotavam posições ideológicas do jornal, os que possuíam a cobertura mais preguiçosa ou imprecisa? É possível analisar apenas o texto e seus recursos argumentativos ou é preciso vasculhar os contextos de produção? Como fugir do senso comum da análise midiática? São questões que se impuseram conforme nosso amontoado de notícias, idéias e impressões foi crescendo.

Mas aos poucos cada peça foi se encaixando em seu devido lugar e nossas análises foram se delineando. Partimos tanto de questionamentos do mundo em direção ao jornal quanto do jornal em direção ao mundo. Com estilos, preferências e percepções de mundo diferentes, nos atemos ao que tangia nossas três visões – o conhecimento da necessidade de um jornalismo mais preciso, ético, responsável, e atuante. Nos criticamos, nos revisamos, aparamos as bordas de cada post até que ficasse acima de qualquer suspeita.

Aprendemos tanto sobre o trabalho jornalístico quando sobre o trabalho de crítica em si. Descobrimos que o óbvio, por tantas vezes não ser visto, pode ser surpreendente. Que o distanciamento é uma falácia e que quanto mais próximo o objeto estiver de nossa realidade, melhor e mais bem embasada será a crítica. Que o necessário para uma boa análise midiática é ler com os olhos atentos, ponderar sobre cada detalhe, recortar, esmiuçar, até que todo o prazer tirado da leitura tenha ido embora.

E que isso não é negativo, muito pelo contrário – enriquece nossa visão. Cada assunto analisado, cada ponto considerado, cada texto escrito afiou nossa percepção de forma que, nas próximas vezes que abrimos as primeiras páginas de um jornal, quer estejamos procurando assunto ou não, já não o veremos do mesmo.

kassab

Relutei, pensei, considerei e relutei de novo.  Minha dúvida era se escreveria ou não um texto para esse blog sobre o jornal O Estado de São Paulo. Não porque o jornal seja irrelevante, afinal ele consta desde o início  em nosso projeto de analisarmos três veículos . O problema é que sempre  achei que acabaria chutando cachorro morto.  Resvalaria, inevitavelmente, no clichê que acompanha mais de um século a existência do jornal, de que é direitista e conservador. Confesso que me agradaria muito mais, em qualquer outra situação, fugir do conceito ou até mesmo tentar desconstruí-lo. Mas não gosto do Estadão, vejo-o com maus olhos. Deixo as boas análises para minhas outras duas companheiras, e decido, então, esbaldar-me no lugar comum.

Antes de adentrar o caso, gostaria de deixar claro que reconheço o valor do jornal. O problema é que mesmo quando apresenta, vez ou outra, jornalismo de alto nível, o veículo faz abertamente suas escolhas partidárias no noticiário político (fantasiadas de verdade factual). Incomoda o pretendido equilíbrio, que, em época de eleição, acaba descambando para o favorecimento explícito.

A mim, bastou-me procurar o exemplo mais escancarado, que corroborasse minha tese. O que não foi, claro, muito difícil. Encontrei o meu factóide no caderno especial para o primeiro turno das eleições locais desse ano,  no dia cinco de outubro, data do escrutínio . Dois longos perfis ocupavam as primeiras duplas do interior do caderno, com Marta e Kassab, já conhecidos contendores no segundo turno, de acordo com as pesquisas.

Agora adivinhe, leitor. Quem é a “rica de família quatrocentona” e quem é o “Beto, bem humorado e divertido”? Seria divertidíssimo, se não fosse constrangedor e até, confesso que saio do sério, revoltante.

“Creolina”

Marta

Para Marta, as críticas do Estadão, os úteis comentários do Fernando Henrique, o caso Martaxa e os elogios do Supla. A reportagem de Vera Rosa é eficiente em dizer que “Ela trocou o divã pelo palanque, mas sem muitas concessões”. Um leitor mais bem informado saberia de cor quais os tópicos mais relevantes na vida da petista, e que inevitavelmente deveriam aparecer em um perfil da então candidata. E estão todos lá. O perfil psicológico chama-a de impulsiva, como todos sabemos que é. Revela como ela age diante dos repórteres (“Próxima pergunta’, ordena, quando repórteres insistem em saber o que ela não quer revelar”) e de que modo se traveste na campanha para encampar os mandamentos políticos dos marqueteiros. Traz alguns bons momentos da candidata, com seus acertos na gestão da cidade (os de sempre, CEUs e bilhete-único) e soam meigos os comentários do filho roqueiro, que arrepia a classe média leitora do jornal, em elogios à sua mãe. Suplicy, o ex, é compreensivo, com “respeito e carinho”.

O perfil bate encima dos defeitos de Marta, talvez excessivamente, mas do jeito que tem que ser. Bom jornalismo. Tudo bem que esteja armado de dois tucanos para criticá-la. Pode ser meio tendencioso, mas vá lá. Colocar o vereador Gilberto Natali (PSDB) em um parágrafo inteiro rindo de sua travessura, quando apelidou com sucesso a então prefeita de “Martaxa”, e disponibilizar ao ex-presidente Fernando Henrique espaço para descer a lenha na candidata é iluminar os olhos do leitor. Traz pontos destoantes para o debate. Dizer que, se ela ganhar, já está com o jogo combinado com Lula, que poderá pular a qualquer hora para uma campanha presidencial, é necessário, visto o histórico de prefeitos na cidade. Assim também o “Relaxa e Goza”, que já está marcado em sua biografia.

Aplaudo honestamente o texto crítico. Em valores absolutos. Mas o que o jornal consegue, com mérito, é transformá-lo em um ataque pessoal de vastas proporções. É só começar a ler o texto da página ao lado.

Não era um craque, mas dava conta do recado

kassab

O texto de Kassab é piada de mau gosto. Ou pelo menos só assim lhe restaria dignidade (“Beto quer ficar mais 4 anos à frente da cidade”). O perfil leva o seu leitor para dentro do mundo mágico de Kassab,  “bem-humorado”, “divertido” e “inteligente”. É certo que grande parte dos adjetivos, que, chuto, compõem uns 75% do texto, são condicionados a seus familiares ou padrinhos políticos. Mas não deixam de ser uma escolha do repórter ou do editor.

Neles descobrimos o gênio, que, por um escorregão, não fosse o alerta do jornal, poderia deixar de habitar a prefeitura. Afinal, como deixaríamos de eleger o “articulador notável, muito capaz”, que “não se deixa abater nem nos momentos claudicantes da jornada” e “não descansa até alcançar o objetivo” ? Ora, “ele é um trator”! Como podemos ignorar que “suas armas são o poder de persuasão e a perseverança?” Que “Movimenta-se sem embaraços. Basta-lhe um telefone, muitas vezes”.

Ou que desde criança, Kassab é um gênio, não só no público, como no privado. Que “se destaca por sua aplicação. Os boletins são a prova de empenho do aluno que virou prefeito. Notas altas ele tira corriqueiramente: no terceiro ano, a média geral bate em 9,7. Em aritmética, naquele 1968, leva a nota máxima em março, abril, maio e setembro. Nos outros meses não vai tão bem: oscila entre 9,6 e 9,8…”.

E é claro que tudo isso veio de uma “família singular”: “Kassab e seus irmãos foram criados em um ambiente de paz e afeto”,  “uma vida muito feliz, todos muito amigos”. No texto nos é revelado que, quando criança, o “brincalhão”, era bom de garfo, só não comia o bendito do agrião. Também que estudou no “Liceu Pasteur, de tantas tradições e histórias”, onde “se formaram alguns próceres da metrópole”. Óbvio, “encantava a professora”. No futebol, “não era um craque, mas dava conta do recado”.
Hoje, “organizado e meticuloso”(“a gaveta dele é de dar inveja, de ganhar medalha”), “bom partido ele é – suas credenciais e dotes não são desprezíveis”. “É irreverente” “não fuma”, “é católico”. Deus sabe como ainda não arranjou uma moça.

Críticas? Lá no final do longo texto, onde possivelmente ninguém chegou, farto de tanta bajulação. Eu cheguei até lá. De imediato, automaticamente, sem pensar, expressei um sincero “Ufa!, ainda bem que ele foi eleito”.
Estranhei. Pensei melhor e, aliviado, suspirei de novo , “Ainda bem que eu não assino o Estadão”.

O jornalismo que busca apenas confirmar uma idéia pré-concebida já é execrado por todos (pelo menos na academia). Mas um jornalismo que visivelmente se propõe a confirmar uma tese e falha miseravelmente ou é preguiçoso ou foi feito nas coxas.

Vou explicar: no dia 30 de agosto saiu o jornal O Estado de S. Paulo a matéria “Sai aumento para 300 mil servidores ao custo de R$ 8 bi”.

O Estado de S. Paulo (30/08)

O repórter Leonencio Nossa começa chutando o balde:

Em troca de um cenário político sem greves até o final do mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou na manhã de ontem duas medidas provisórias que reajustam o salário de cerca de 300 mil servidores públicos federais ativos e inativos.

A primeira frase da matéria já dá o tom do texto inteiro. A relação entre o aumento concedido e a intenção supostamente escusa é forçada e soa estranha numa reportagem localizada no espaço meramente informativo do jornal. Esse julgamento soa mais como editorial.
O resto da matéria, obviamente, vai se concentrar menos em dizer quais são os tramites das negociações que levaram ao aumento e em contextualizar esse gasto no orçamento do governo dos anos seguintes e irá focar-se nas ações do presidente para acalmar os funcionários e garantir tranqüilidade para 2010, ano de eleição é bom lembrar. No entanto, ele não procura nenhuma fonte ligada ao governo para falar sobre o assunto.
O repórter adiciona na cesta de argumentos a criação de mais 13.500 novos cargos. Agora, o que isso tem a ver com a ausência de greve é um mistério pra mim.
O texto continua com medidas antigas que concederam reajustes para os funcionários. E então vem a parte mais estranha do texto:

Muitos acordos foram feitos em maio. Foi o caso dos 15 mil analistas da Receita Federal. Eles negociaram um aumento médio de salário de 50%.
“O governo foi inteligente”, avaliou Paulo Antunes de Oliveira, presidente do Sindicato Nacional dos Analistas Tributários da Receita Federal (Sindireceita). “Esse escalonamento foi para evitar pressões em 2010”, avaliou. “Na ótica do governo, enquanto estiver em vigor as parcelas de aumento não vai ter negociação.” Um analista tributário começa a carreira recebendo salário mensal de R$ 5.300 e, ao final da carreira, terá um benefício de R$ 7.000. Com os aumentos, os salários passam respectivamente para R$ 8.000 e R$ 11.600 em 2010. A última greve da categoria ocorreu em 2005.
“Negociamos o que foi razoável”, diz Oliveira.

O repórter pinça a fala do presidente do sindicato de uma categoria beneficiada pelo aumento. Nela, o representante confirma a tese de que o governo agiu com a intenção de “calar a boca” dos analistas da receita federal com o aumento escalonado. Daí o repórter fala do aumento propriamente dito, para ilustrar a situação. E, então, fecha o texto com duas frases: “A última greve da categoria foi em 2005. “Negociamos o que foi razoável”, diz Oliveira”.
Hein?! Fica parecendo que o repórter não sabia o que escrever e juntou umas frases aleatórias.
Depois, ele volta a cumprir a sua tese de que o governo está agindo com a intenção de acalmar os funcionários. Desta vez, ele vai mostrar como essa ação está sujeita a falhas.

No entanto, há sinais de rebeldia na base dos servidores. Antes mesmo de ler os textos das medidas provisórias, os previdenciários avisaram que não existe acordo de manter a Esplanada dos Ministérios limpa de manifestações e nos dois últimos anos do governo Lula.

“Não temos compromisso de não fazer movimentos até 2011.”

Texto mal começado, mal escrito. Mas a retranca consegue piorar.

“Até técnicos do governo vêem exagero em reajustes” – (30/08)

O Estado de S. Paulo (30/08)

O repórter Sérgio Gobetti vai atrás de fontes do planalto. Todas, sem exceção, em off. E, obviamente, todas criticando a postura do governo. As críticas se relacionam à falta de limites dos aumentos em contraposição a um projeto de lei do próprio Ministério do Planejamento ainda não aprovado que instituía esse limite. E para fechar o texto, o repórter diz que “O governo incluiu na MP um condicionante de que a concretização dos aumentos dependerá da existência de receita.“ e não desenvolve essa polêmica, nem explica os termos dessa condicionante caso não haja receita.
Enfim, a matéria parece não ter a função de informar, mas sim de confundir e expor uma postura contrária, sem muito embasamento.

Se a intenção era analisar de uma forma crítica o aumento, por que não contextualizar esse aumento em comparação à divisão orçamentária do país ou chamar especialistas que pudessem falar sobre o gasto do governo com custeio contra aquilo que investe? Enfim, algo mais consistente do que apenas reunir falas em off e redigir um texto confuso. (há sempre a possibilidade de a culpa ser do deadline e do editor, é claro).

É guerra!

jak

Talvez como um processo final do texto que você lê, caro leitor, a cidade do Rio de Janeiro nunca caiu nasminhas graças. Confesso que, quando é época de final de ano e elenco os destinos mais prováveis para minhas esparsas férias, a cidade sempre ocupa um último lugar  nas minhas pretensões turística. Apenas conheço o Rio maravilhoso das novelas globais (o Leblon, eu acho), a cidade reluzente descrita por Danuza Leão e o factual dos jornais, a violência e a podridão política, em suma.

Mas não é a mesma violência e podridão política que sai pelo ladrão na cidade de São Paulo. No Rio, a violência e a podridão política se imiscuem em uma mesma percepção da realidade, rompem a linha divisória de entendimento que classicamente coube ao jornalismo  delinear. Pegue-se a Folha de São Paulo, por exemplo. Nela bastidores políticos e decisões próprias do poder encontram-se protegidas em um austero caderno azul, nomeado com o nome da própria pátria. A polícia só invade essas nobres páginas quando é a polícia federal, de terno e gravata, bem como os crimes de colarinho branco, que a lógica dos veículos coloca em outra esfera de entendimento. Àquela polícia que derrama sangue, faz tiroteio e mata pobres é reservado o “Cotidiano”, em um título vermelho distante das decisões palacianas.

Tiroteios, seqüestros

No Globo não. O jornal carioca resume em si o caos que o resto da mídia transmite para o resto do país (notadamente a TV) como o cenário da cidade. Noticia o Estado com uma visão própria de quem se encontra alocado dentro do Rio. Não há a divisão entre os gabinetes áulicos e o mundão cotidiano de todos nós, todos estão condenados à ditadura da violência, com tiroteios e intenso tráfico ocupando as manchetes.
Tomo aqui, a esmo, a edição de sábado, 18 de outubro de 2008. Nela tem-se o desfecho do caso da menina Eloá, com a refém em coma ( posteriormente morta) ocupando o destaque no topo da página com direito a duas fotos. Seria o mesmo nos outros jornais, mas com uma provável manchete “séria” mais abaixo, de temas que iriam de economia ao poder constituído. Porém a tipografia deu a manchete para o poder paralelo, com a morte do diretor de presídio assassinado dentro de seu carro (“Resolução obrigava estado a proteger diretor de presídio”). Não fosse o logo, tomaria o noticiário por um jornal popular, tal o Extra e o Agora. Mas o jornal crê que isso constitui o mais urgente, o que emerge de mais importante da sociedade que ele enxerga.

Dentro, na salada que é o primeiro caderno, na editoria “País”, a mais importante do jornal, o caso da menina Eloá é destaque em três páginas completas, à exceção de uma que divide com Merval Pereira, ilustre colunista do primeiro time de O Globo: disputa em tamanho e importância com a análise política da crise, coisa impensável em outros jornalões, com o perdão da palavra. Na continuação do fluxo de notícias saltamos de Eloá para a rixa entre PT e PSDB, que se digladiam no noticiário paulista em torna da greve dos policiais civis. É tudo notícia de São Paulo, sem distinção. Segue o restante das páginas com os prefeituráveis do Rio, para, sem mais nem menos, sem nenhuma mudança brusca na pesada diagramação, entrarmos no noticiário não-político local, editoria “Rio”, com mais cadáveres à espreita, em um caderno interrompido ao meio, para continuar no próximo calhamaço preto-e-branco, sem cor.

Agora o jornal vai falar

O leitor mais desavisado estranha como O Globo domina as suas páginas. Sua editoria de opinião, com editoriais e colunistas, surge entrecortando o caso Eloá, ocasiona uma quebra de leitura e atravessa o fato noticiado. Depois a menina continua sua agonia, como se nada houvesse acontecido. Sintomático também são os pequenos boxes de opinião do próprio jornal, como se fosse preciso se posicionar a todo instante diante da realidade calamitosa. Tem-se a impressão de se ler um jornal com a presença de uma pesada mão do editor. Necessária para acudir quem descobre naquelas páginas a vileza da realidade, ela vem para  instaurar a ordem que há muito não existe nos fatos noticiados.

É casado? Tem filhos?

"É casado? Tem filhos?"

Grande parte dos ensinamentos que temos na faculdade de jornalismo é somente aprendido na prática, na própria confecção de material noticiário. Em tempos de Jornal do Campus, de cuja equipe este que escreve faz parte, a prática foi pródiga em ensinar que, na edição, são poucos os erros do acaso. A malícia do jornalista é, com toda certeza, a artífice de grande parte das coincidências, arquiteta do que está velado. Mas nem tudo é galhofa, as sub-mensagens compõem o conteúdo  a ser transmitido, como um sussurro de um segredo contado.

Estou a falar aqui da peça armada nas últimas eleições municipais. À época, Marta Suplicy, candidata do PT, no início do segundo turno, lançou mão de propaganda publicitária em que questionava a vida pessoal de seu adversário, Gilberto Kassab (DEM). Perguntou  se o prefeito é solteiro ou tem filhos. Como um tabu que todos os jornalistas de todas as redações não conseguiam mais evitar, o assunto explodiu no noticiário. Passou-se, e este é caso interessante, de uma notícia velada, mas cheia de indicações sobre seu verdadeiro conteúdo, até o aberto diálogo. Somente no final da história, perguntou-se diretamente ao prefeito se era mesmo gay.

À parte o debate sobre o quanto importa com quem vai à cama Kassab, é indicativo percebermos como reagiram os editores da Folha diante dessa bomba, como buscaram informar o leitor no momento em que ela estourou.

instantanea-2008-11-27-01-04-11A notícia, no dia 13 de outubro, foi a segunda na hierarquia da primeira página (“Marta questiona vida pessoal de Kassab”). Na foto, no alto da página, composta por duas partes, mostrando momentos do debate televisivo ocorrido no dia anterior, Marta e Kassab gesticulam, um de frente ao outro. Marta acusa com feição contraída e o dedo em riste. Kassab, com as mãos espalmadas, parece embaraçado ao tentar se explicar de qualquer coisa.

Até aí tudo bem, diriam. Mas não seriam nessas indicações diretas que o leitor iria buscar suas informações complementares. Na metade inferior da página cinco chamadas, em plena harmonia, que continuam o sentido de leitura da rixa política, é o que promove um parcial entendimento do que se passa.

Kaká e Dunga, em cena explícita de afeto, ocupam os olhares na parte inferior da página, logo abaixo da chamada Marta/Kassab, em um caloroso e sorridente abraço dos dois homens. Para complementar, uma quadra de chamadas, acredito, especialmente selecionadas. Intimamente posicionadas ao lado direito da foto do abraço afetivo, lê-se, em negrito, nos quadrinhos coloridos, temas relacionados à sexualidade: “Seleção de espermatozóides”, “Contra cenas de nudez” e “Sexo e Saúde”. No lado esquerdo da foto, chamada sobre o HIV.

Kassab é maquiado em debate

Kassab é maquiado em debate

Daí que se depreende que Kassab é mesmo homossexual? Claro que não, mas basta para instaurar um comichão atrás da orelha do leitor.

O próprio, curioso, abre então o caderno e vai direto à editoria Brasil. Na página A3, a notícia está lá, “Marta explora vida pessoal de Kassab, que recorre à Justiça”. No texto, pouco sobre tudo, mas não o suficiente. “Na televisão e no rádio, um locutor disse que o eleitor deveria saber se ele é casado e se tem filhos”. Os repórteres Laura Mattos, Catia Seabra e Conrado Corsalette registram a opinião de uns e outros (“Lamentável e de baixo nível”, disse a coordenação da campanha do democrata; “O que você está querendo insinuar?”, Marta Suplicy). Mas não, novamente, não era só a notícia que estava ali.

Gabeira na Parada Gay

Gabeira na Parada Gay

No “Painel”, ao lado, o título é de “Hora do Desespero”. O ápice, porém, é a retranca no pé da página. Com relevância nula para se posicionar na primeira página do caderno, a Folha colocou estrategicamente que “Gabeira assina carta contra homofobia”. E há até foto!, algo estranho para o padrão de retrancas nessa página do jornal. Ela mostra participantes da Parada Gay do Rio vestidos espalhafatosamente,  mais o candidato Gabeira. A cereja no bolo, enfim, encontra-se na página seguinte com uma foto de Kassab sendo maquiado com um pincel para blush, ou algo assim, por um assessor no meio do referido debate.

É possível que seja paranóia e essas coincidências sejam próprias do jornalismo.? É tudo tão orquestrado que não acredito. O importante é questionar se foi feito jornalismo. Também, se o eleitor mais desavisado, que corria por fora dos boatos correntes, entendeu plenamente o que se passava. Dificilmente. O jornal preferiu esperar, deu no outro dia um contorno factível ao assunto com declarações de repúdio partidas de organizações que representam os homossexuais. Passou a bola para outros e não explicou o que se passava. Caiu na apatia do politicamente correto.

Questão Encerrada.

 É inegável que o regime militar brasileiro deixou profundas marcas em nossa sociedade. E, embora muitas vezes esses traumas sejam supervalorizados e usados como desculpa para nossa incapacidade de seguir em frente, não é ignorando o assunto que vamos superar os fantasmas do passado.

Discutir a Lei da Anistia e a prescrição ou não dos crimes de tortura cometidos com o consentimento do governo militar não é um desejo masoquista de reabrir feridas já cicatrizadas, mas uma necessidade de definir nossa postura atual em relação à defesa dos direitos humanos e à impunidade.  E mesmo para quem seja contra – na realidade, justamente por existirem diferentes posições sobre o assunto na sociedade – existe necessidade de discussão.

No entanto, não é assim que o Estado S. Paulo parece pensar.  Em editorial do dia 4 de novembro, o jornal afirma que o presidente Lula deixou que se reabrisse uma

questão que parecia encerrada, uma vez que é evidente que, do ponto de vista jurídico, a Lei da Anistia perdoou os dois lados nos conflitos da ditadura.

Tarso Genro, que defende a punição para os torturadores.
Tarso Genro, que defende a punição para os torturadores

Claro que excesso de polêmicas e picuinhas entre membros do governo, militares e judiciário levam a lugar nenhum.  E é sinal de inabilidade de todas as parte que uma discussão como essa acabe virando uma crise entre poderes. Mas ao afirmar que a questão estava encerrada, o jornal mostra má vontade em cumprir seu papel fundamental de fomentar o debate na sociedade.  Afinal, qual seria a idéia? De que a crise pode ser evitada com a falta de debate!?

Erro de Foco

Na tentativa de ter uma atitude em relação a casos polêmicos como esse e manter coerência das matérias com o editorial, o jornal acaba se equivocando quanto ao foco e a relevância das notícias e depois tem que correr atrás do prejuízo, parecendo muito mais esquizofrênico do que gostaria.  

A matéria principal do dia 4 de novembro sobre a Lei da Anistia é Lula manda calar sobre anistia, mas Tarso resiste. Há ainda duas entrevistas com posições diferentes sobre o tema, só para parecer ouvir os dois lados,  e uma pequena notícia sobre uma fala de Gilmar Mendes, do STF, dizendo que o terrorismo também é imprescritível de acordo com a constituição.

A matéria principal tenta manter o foco dado pelo editorial, de que a culpa de toda a crise é de Lula, e subestima a importância e o impacto da fala de Gilmar. Ele se equivoca dando um parecer sobre um assunto que ainda será julgado pela justiça, e ainda por cima utiliza uma expressão ideológica largamente utilizada pelos militares durante a ditadura.  Mas a coluna sobre sua fala nem ao menos sinaliza esses fatos e dá voz ao presidente do STF sem postura crítica alguma. A maior parte do texto é feita de aspas.

Gilmar Mendes, que defende a anistia geral e irrestrita.

Gilmar Mendes, que defende a anistia geral e irrestrita.

Sem contar o fato de pôr toda a culpa no presidente da república é uma exagero absurdo. Há quem diga que Lula consegue escapar ileso de tudo, afirmando que tudo o que é bom é resultado de seu trabalho e tudo o que é ruim é culpa dos outros.  Obviamente o Estadão não defende o presidente dessa forma, mas ainda assim parece acreditar na sua onipresença e superestimar suas declarações.

O foco é a discussão sobre a anistia, é a crise, não a declaração de Lula. Ela é importante, sim, mas secundária. Afinal, como afirma o próprio presidente, a crise será resolvida no judiciário.  Se é pra ficar no jornalismo declaratório, ao menos que se de destaque para a declaração mais relevante no caso – a do presidente do STF.

O jornal só se dá conta disso nos dois dias seguintes, incapaz de prever minimamente os desdobramentos dos fatos. Aí tenta consertar.  Dia 5 publica uma pequena notícia Declaração de Mendes sobre terrorismo incomoda Planalto, no qual afirma que a declaração de Gilmar Mandes foi vista como um ataque à cúpula do planalto que participou da luta armada contra a ditadura.  Dia 6 publica uma matéria e uma entrevista sobre o assunto: ”Militantes exerceram direito legítimo” e Presidente da OAB defende guerrilhas, título, aliás, que passa uma idéia totalmente errada – o que Cezar Britto faz não é a “defesa da guerrilha”, mas afirmar que a luta armada contra a ditadura é um ato político e não se configura como terrorismo. Dá também uma nota É preciso olhar para a frente, diz Jobim a militares, colocando um claro tom positivo na declaração do ministro. É explícito para qual lado da discussão o jornal se inclina, mas, ao menos no dia 6, o Estado acertou no foco. Afinal, o que fazer se o governo reabre uma discussão que já “estava encerrada”? Só resta entrar na onda e escolher um lado…

 

Denúncia pela denúncia

Se uma das funções do jornalismo é trazer à sociedade as informações sobre aquilo que ocorre em lugares que ela não pode estar, então é ponderado dizer que o jornalismo possui certo caráter fiscalizador daquilo que ocorre no mundo da política.

Um dos meios de que o jornalismo dispõe para cumprir essa função é a denúncia. Mas a denúncia pela denúncia acaba colaborando muito mais para as pílulas de informações que engolimos diariamente do que para o esclarecimento de situações fora da normalidade que dizem respeito ao interesse público.

No dia 07 de setembro, o jornal O Estado de S. Paulo deu como manchete a seguinte notícia: “R$ 15 bilhões foram desviados de obras públicas, calcula PF”

O Estado de S. Pauo (07/09)

A chamada gerou uma página inteira do jornal, dividida em texto principal com foto e 3 infográficos e mais duas retrancas sobre a Polícia Federal.

O texto é objetivo. Diz quem apurou

Serviço de Perícias de Engenharia Legal da Polícia Federal – braço do Instituto Nacional de Criminalística (INC) que inspeciona obras públicas sob suspeita

Oque apurou

Os valores do desvio, corrigidos para 1.º de agosto, são relativos ao período entre 2000 e 2008 e foram calculados a partir da análise de 1.770 laudos elaborados pelos engenheiros federais em obras contratadas com recursos da União. (…) Os peritos vistoriaram 9,32 milhões de metros quadrados de área e 3,84 milhões de metros cúbicos de materiais. Percorreram 211,8 mil hectares de terras. Foram inspecionados 364 canteiros. Eles analisaram o custo mínimo de 313 obras e a qualidade do material empregado em 177 delas. Em apenas 58 não identificaram malversação. Superfaturamento é recorrente: 168 contratos com preços irreais. (…) Os modelos de obras que mais passaram pelo crivo da perícia são as edificações (33%) e as estradas (16%). Também foram alvo pontes (4%), drenagem (5%), hídricas (3%), elétricas (2%), água (9%), saneamento (8%).”) e como apurou (“Para chegar ao montante do rombo, os técnicos adotaram procedimentos de análise documental, levantamento topográfico, avaliação objetiva da qualidade do pavimento e ensaios laboratoriais.)

O jornal  também cita um ou dois casos (geralmente os mais absurdos) para ilustrar a matéria. A enxurrada de números faz com que se conclua que o jornal teve acesso ao relatório da Polícia Federal. E apenas isso.

Depois da ficha técnica (que toma o texto principal inteiro), o jornal fala com dois peritos envolvidos na investigação. Contam algumas de suas histórias e retratam a indignação deles ao se deparar com tantas irregularidades.

O leitor também está indignado e em vez de encontrar respostas ou promessas de que haverá punição e reestabelecimento da ordem, encontra duas retrancas que falam sobre a atuação e estrutura da PF. (“Peritos do INC produziram quase 33 mil laudos este ano” e “Quadro do instituto não pára de crescer”). Outra chuva de números, mas agora números que parecem ter saído do release da PF.

Metade da página é ocupada pelas duas retrancas...

Metade da página é ocupada pelas duas retrancas...

Em 2008, eles fizeram 32,914 laudos-estatística que inclui as unidades de todo o País. Perícias contábeis e econômicas foram 1.011. As de engenharia somaram 457. A de audiovisual e eletrônicos, que faz a transcrição dos grampos, fechou com 1.327 laudos. Documentoscopia concluiu 7.585 relatórios. Informática, 6.574. Laboratório, 6.456. A equipe da balística completou 2.311 laudos.

Peritos do INC produziram quase 33 mil laudos este ano (07.09)

O leitor que foi até a página movido pela manchete na capa, fica à espera de punições. O jornal não conversou com nenhum órgão punitivo, nem citou qual seria o procedimento a ser aplicado para que se encontrassem culpados.

Em outra matéria de denúncia, agora do dia 01 de outubro, conseguimos pelo menos as desculpas daqueles que são acusados. Em “Auditoria mostra rombo de R$ 200 mi em fundos de pensão”, o jornal segue o mesmo padrão de relatório final de investigação.

O Estado de S. Paulo (01/10)

Quem apurou

“Investigação conjunta realizada pelo Ministério da Previdência e pelo Banco Central”

O que/como apurou

As auditorias realizadas entre 2003 e o segundo semestre de 2007, e só agora reunidas, mostram que os fundos de pensão do chamado Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), destinados a bancar as aposentadorias dos funcionários de prefeituras e Estados, foram alvo de operações financeiras suspeitas.

Caso

O maior prejuízo individual foi registrado pelo fundo de previdência dos funcionários do Tocantins, o Igeprev. As operações causaram R$ 24 milhões de perdas entre dezembro de 2005 e janeiro de 2006. Ao comprar títulos públicos, o Igeprev chegou a pagar 28% a mais do que a média do mercado. Parte das perdas chegou a ser investigada pela CPI dos Correios. Passados mais de dois anos, os responsáveis ainda não foram apontados. O Ministério Público no Tocantins informa que habeas corpus obtidos por dirigentes do fundo na Justiça atrasaram as apurações. O Tribunal de Contas do Estado, que chegou a ordenar a suspensão das operações com a Euro e a Senso, corretoras envolvidas nas operações, ainda não julgou o caso.

A diferença é que dessa vez, ao que consta, ficaram claros quais eram os procedimentos a serem tomados a partir da suspeita.

Os relatórios de auditoria foram remetidos ao Ministério Público Federal e aos dos Estados e também já estão sob análise na Polícia Federal. O objetivo é apurar a legalidade das operações e identificar os responsáveis por eventuais fraudes, que inclui administradores dos fundos, em geral ligados às prefeituras e governos estaduais, e das instituições financeiras citadas.

Engraçado pensar que as coisas, então, parariam na PF. Outro detalhe é a diferença dos valores envolvidos. Ambos tratam de denúncias referentes a dinheiro público do país todo, mas a primeira envolve R$ 15 bi e a segunda “apenas” R$ 200 mi. Na segunda matéria ( a dos fundos de pensão), ao menos podemos “ouvir” aquilo que os responsáveis têm a dizer.

“Empresas e fundos acusados negam fraudes” – (01/10)

E então descobrimos que não adiantou nada ler a coluna inteira de texto, pelo menos não da forma como ela é. O que vemos é uma dança de desculpas bastante parecidas que apenas negam aquilo que foi dito na reportagem principal.

O advogado da Euro DTVM, Antônio Augusto Figueiredo Basto, afirma que a empresa sempre atuou dentro da legalidade. “Não há fraude, não há enriquecimento ilícito por parte da Euro”, declarou. Segundo ele, todos os preços praticados pela empresa foram autorizados pelos fundos.

Se o caso for julgado e concluído, é certo que não haverá tanta repercussão nos jornais, ficando sempre o gosto da impunidade. Não quer dizer que o país tenha a característica da impunidade por causa dos jornais ou de sua cobertura, claro. Mas se a opinião pública pode influenciar a tomada de decisões como já aconteceu algumas vezes; cabe ao jornalismo, então, contribuir para o fornecimento de informações que permitam à sociedade construir essa opinião.